Somos invisíveis. Somos aqueles que tinham tudo pra dar errado, mas que demos certo. Mesmo assim, e talvez por isso mesmo, não somos vistos nem ouvidos. Permanecemos invisíveis. Ou, pelo menos, fora das vistas. Se somos pobres e deveríamos ter sucumbido à escravidão do sistema, como peões de suas fábricas ou criminosos de suas cadeias, não cedemos e estamos aqui. Permanecemos ocultos, mas ainda assim estamos aqui e na ativa. Se somos ricos e deveríamos ter nos associado à liderança alienante e dominadora, que oprime a maioria escravizada para manter sua situação, não compactuamos e estamos aqui. Nas sombras, permanecendo velados, porém, mesmo assim, aqui e na ativa também.
Somos aqueles que, acreditando numa mudança de paradigma, não entramos para o fluxo das coisas que caminham para a destruição maior, coisas e pessoas coisificadas que perderam o rumo da vida, esquecendo da morte inexorável.
Somos aqueles que têm como principal valor a vida. Acima de tudo a vida humana; sim, porque somos humanos, respeitamos as outras vidas, mas a vida humana deve ter prioridade para nós, porque somos o que somos. E até porque o movimento da vida humana tem sido ignorado pela própria humanidade, que estabeleceu outras prioridades que não incluem cuidar de si mesma.
Vivemos uma era das coisas. O movimento humano encontrou um obstáculo, e podemos chamar a isso de era das coisas. Os espaços são priorizados, a humanidade se pré-ocupa e ocupa todo o tempo em preencher espaços. E não é preencher com pessoas, até porque isso seria impossível, pessoas são movimentos que passam pelos espaços, e não os ocupam, a não ser por um curto espaço de tempo. A humanidade tem se ocupado em preencher espaços com coisas. Coisas feitas pela própria humanidade, não para melhorar o cuidado consigo, mas apenas, para preencher espaços. Temos pessoas que apenas cuidam de lugares que são espaços vazios, mas que por ordem de outras pessoas, de quem os primeiros são escravos, devem permanecer vazios de pessoas, e os escravos têm ordens para matar quem se aproximar. Esses escravos também são pessoas, porém pessoas coisificadas, que se esqueceram o que é ser um humano, e agora dependem tanto de seus mestres para viver que jamais questionam suas ordens.
Nós somos aqueles que burlam essas ordens, e que mesmo quando nas mãos desses mestres do mal, vestimos nossas máscaras de coisas, e fingimos aceitar seus desígnios. Mas resistimos. De um jeito ou de outro. E sem nossas máscaras, permanecemos invisíveis. Mas aqui estamos, e aqui está este escrito que percorrerá mentes, e dará um indício de que, apesar de invisíveis, ocultos e velados, nós existimos e estamos fazendo algo.
Lutamos contra a era das coisas. Resistimos à coisificação, com amor à sabedoria, nos alimentando da boa arte e cultura apesar de todas as tentativas de nos fechar olhos e ouvidos, e todos os sentidos, para que não possamos ver os grilhões que tentam nos colocar. As forças da coisificação também são pessoas, há gerações coisificadas, cujo principal valor são outras coisas, como por exemplo, aquilo que chamam de vil metal. Para essas pessoas todos são coisas assim como eles mesmos. Precisam ter uma utilidade ou sofrer o descarte, ser úteis ou ser obstáculos, e se obstáculo, deve ser removido, eliminado.
Basicamente são esses os seus principais valores, e como coisas que se acham, pensam que podem ocupar espaços para sempre, ignorando o fato de que o para sempre, sempre acaba.
Nem as coisas propriamente ditas duram. Também elas são algum tipo de movimento, talvez mais lento do que o movimento humano, mas também as coisas passam e vão. Por isso o movimento da coisificação e do preencher espaços é tão pernicioso: por que seu sentido último levará a uma finitude que não aproveitou o que o caminho tinha a oferecer. O caminho é o próprio sentido. Somos um movimento através de um tempo, e o que podemos aproveitar é apenas o caminho, e se tem algo que permanece, é quem carregamos conosco em nosso caminho. Só o que permanece, é a lembrança que alguém compartilhou com outro. É aquilo que encontramos juntos durante a caminhada, que também ficou para traz, passou, mas sobre o qual podemos falar a respeito e mostrar a outros. O que fica é aquilo que sentimos juntos, que ganhou significado por que se deu junto e nos deu algo sobre o que falar, escrever, cantar ou pintar.
Ainda assim, eles tentam nos calar, tomar nossos pincéis e quebrar os violões. Fazem tudo ficar tão inacessível que apenas o que eles querem chega a nós. Ou, pelo menos, é o que tentam fazer. Sim, eles estão na frente, e por isso permanecemos ocultos, mas estamos aqui e na ativa. Nós pegamos sua principal ferramenta, a técnica, e usamos contra eles. A coisificação torna a humanidade escrava da técnica, consumidores e consumidos, burguesias e proletariados, ricos, pobres, bandidos e mocinhos, todos escravos hierarquicamente organizados trabalhando na tentativa de ocupar todos os espaços da Terra, com toda a sua técnica, que em última instância só é empregada para esse fim. Atropelam-se uns aos outros, e passam por cima de muitos dos nossos, em sua seara desenfreada de conquista e dominação. A extinção é o limite, porque apesar de suas tentativas, há a finitude, e a morte chega para todos.
Mas nós aprendemos sua técnica. Eles acharam que poderiam nos ensinar a trabalhar para eles sem que nunca percebêssemos o que tínhamos nas mãos. Bem, nós percebemos, e temos aprendido a usar contra eles. A mesma técnica que oprime e aliena é também aquela que pode libertar e ensinar.
Apesar de tudo e de todos, estamos aqui, e estamos fazendo algo. A cultura que liberta, o amor à sabedoria, e a boa arte continuarão a percorrer as mentes das pessoas por todo o mundo, não importa o que façam para tentar nos impedir. Nós nos encontraremos, e compartilharemos nossos momentos de liberdade, perto ou longe, seguiremos planejando um mundo melhor, e agindo nas sombras, em pequenas ações de grande relevância a longo prazo, não com resultados imediatos à moda da coisificação, mas com melhorias duradouras, que com o tempo poderão mudar os rumos do movimento da humanidade.
Somos aqueles que pensando, mudarão o mundo. Porque não podemos mudar nada se não mudarmos o pensamento, a maneira de pensar das pessoas, então permanecemos ocultos, apenas deixando entrever as nossas idéias, porque o movimento das idéias é mais duradouro do que o próprio movimento de quem as idealizou, então são elas, as idéias, quem tem a maior chance de promover a mudança para além de nós. Então, pensemos. E compartilhemos.
Por uma mudança de paradigma.
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